Por que existem dois Congos na África? E um é mais democrático que o outro?

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Nesta quarta-feira (1º), a República Democrática do Congo enfrenta a Inglaterra pelas oitavas de final da Copa do Mundo 2026. A vaga veio após a vitória por 3 a 1 sobre o Uzbequistão, resultado que garantiu ao país, pela primeira vez, uma classificação para a fase de mata-mata do torneio.
A campanha da seleção também voltou a levantar uma pergunta frequente. Afinal, por que o país divide o nome com seu vizinho, a República do Congo?

Para entender a resposta, é preciso voltar alguns séculos. Muito antes da chegada dos europeus, boa parte da região era ocupada pelo Reino do Congo, um dos mais importantes Estados da África.
Fundado por povos bantos por volta do século 14, seu território abrangia áreas que hoje pertencem à República Democrática do Congo, à República do Congo, a Angola e ao Gabão, enquanto sua capital, Mbanza Congo, ficava próxima à foz do rio Congo.

O reino possuía uma estrutura política organizada, com um rei, autoridades regionais, sistema de cobrança de tributos e intensa atividade comercial.
A partir do fim do século 15, navegadores portugueses chegaram à costa da África Central e estabeleceram relações diplomáticas e comerciais com o Reino do Congo. Em um primeiro momento, houve alianças entre as duas partes. A elite congolesa adotou elementos da cultura europeia, incluindo o cristianismo, por exemplo.
Com o tempo, porém, a expansão do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas alterou profundamente essa relação. A crescente demanda por mão de obra nas colônias americanas estimulou guerras, disputas internas e o comércio de pessoas escravizadas na região.

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Ao longo dos séculos 16 ao 19, milhões de africanos foram traficados para as Américas, muitos deles oriundos de territórios que hoje correspondem aos dois Congos e a Angola.
Enfraquecido, o antigo Reino do Congo perdeu boa parte de sua influência e poder.
A divisão europeia
Foi nesse contexto que ocorreu a chamada Partilha da África. No final do século 19, as principais potências europeias iniciaram uma corrida para ocupar territórios africanos e explorar seus recursos naturais.
Entre 1884 e 1885, representantes dessas nações se reuniram na Conferência de Berlim para dividir grande parte do continente em zonas de influência, sem consultar os povos que já viviam ali.
Na região do rio Congo, a margem oeste foi incorporada pela França e passou a formar o Congo Francês.

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Já a margem leste ficou sob domínio do rei Leopoldo II, da Bélgica. Em vez de transformar a área em uma colônia do Estado belga, ele registrou o território como uma propriedade particular. Nascia o Estado Livre do Congo.
Na prática, tratava-se de um imenso empreendimento privado voltado para a extração de marfim e, principalmente, de borracha, cuja demanda crescia rapidamente com a expansão da indústria mundial.
O sistema de exploração ficou conhecido pela extrema violência. Milhões de congoleses foram submetidos a trabalho forçado. Quem não atingia as metas de produção podia sofrer torturas, mutilações ou execução. 
As denúncias provocaram indignação internacional. Em 1908, o governo belga retirou o território do controle de Leopoldo II e o transformou oficialmente na colônia do Congo Belga.
Enquanto isso, o Congo Francês permaneceu sob administração da França.

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Os dois territórios conquistaram a independência em 1960, mas seguiram caminhos bastante diferentes. O antigo Congo Francês tornou-se a República do Congo, cuja capital é Brazzaville. Já o antigo Congo Belga também passou a se chamar República do Congo, tendo Kinshasa como capital.
Isso gerou uma enorme confusão diplomática. Para diferenciá-los, tornou-se comum usar o nome das capitais: Congo-Brazzaville e Congo-Kinshasa. 
Do Congo ao Zaire e de volta
Logo após a independência, o Congo-Kinshasa mergulhou em uma grave crise política.
O primeiro-ministro Patrice Lumumba, uma das principais lideranças da independência, foi assassinado em 1961 durante um período de guerras internas e disputas entre potências da Guerra Fria.

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Em 1965, o general Mobutu Sese Seko tomou o poder em um golpe militar apoiado por países ocidentais.
Alguns anos depois, lançou uma campanha de “africanização” destinada a eliminar referências coloniais. Em 1971, rebatizou o país como Zaire, nome derivado de uma adaptação portuguesa da palavra nzadi, usada por povos locais para designar o rio Congo.
Foi com esse nome que a seleção disputou a Copa do Mundo de 1974 – a única participação anterior deles no torneio. A campanha terminou sem pontos, com derrotas para Escócia, Iugoslávia e Brasil.
A ditadura de Mobutu durou mais de três décadas e ficou marcada por corrupção, repressão política e concentração de riqueza nas mãos da elite governante.
Em 1997, uma rebelião liderada por Laurent-Désiré Kabila derrubou o ditador. O novo governo restaurou o nome República Democrática do Congo, utilizado até hoje.

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Enquanto isso, o Congo-Brazzaville também enfrentava instabilidade. Nos anos seguintes a independência da França, enfrentou sucessivos golpes militares até que, em 1969, adotou o nome República Popular do Congo, tornando-se o primeiro país africano a oficializar um regime marxista-leninista de partido único, apoiado pela União Soviética.
O modelo durou até o início da década de 1990, quando o país abandonou o socialismo e retomou o nome República do Congo (que perdurou até hoje).
Nas primeiras eleições multipartidárias, em 1992, o então presidente Denis Sassou Nguesso, que governava desde 1979, foi derrotado. Cinco anos depois, porém, uma guerra civil o levou de volta ao poder. Ele permanece presidente desde então, tornando-se um dos governantes mais longevos da África.
Diferenças
Apesar da semelhança nos nomes, os países são bastante diferentes.
A República Democrática do Congo é o segundo maior país da África em área territorial, atrás apenas da Argélia. Tem cerca de 116 milhões de habitantes e uma enorme diversidade étnica, com mais de 250 grupos diferentes.
Já a República do Congo possui aproximadamente 6 milhões de habitantes e um território quase sete vezes menor.
As capitais também chamam atenção por um detalhe curioso. Kinshasa e Brazzaville ficam frente a frente, separadas apenas pelo rio Congo. São as duas capitais nacionais mais próximas do mundo que pertencem a países diferentes.
Além disso, a República Democrática do Congo reúne algumas das maiores reservas minerais do planeta. O país possui grandes depósitos de cobre, ouro, diamantes e cerca de 70% das reservas mundiais conhecidas de cobalto, um metal essencial para fabricar baterias de celulares, notebooks e carros elétricos.
Também abriga a segunda maior floresta tropical do mundo, atrás apenas da Amazônia.
Mesmo assim, grande parte da população vive em situação de pobreza. Isso acontece por uma combinação de fatores que inclui décadas de exploração colonial, corrupção, instabilidade política e conflitos armados que continuam até hoje, especialmente na região leste.
Afinal, um é mais democrático que o outro?
Pelo nome, muita gente imagina que a República Democrática do Congo seja necessariamente mais democrática do que a República do Congo. Mas isso não acontece. O termo “República Democrática” faz parte apenas do nome oficial adotado em 1997.
Os dois países realizam eleições, mas ambos enfrentam críticas frequentes de organizações internacionais por problemas relacionados ao funcionamento das instituições democráticas, como concentração de poder, denúncias de fraudes eleitorais, restrições à oposição e limitações à liberdade de imprensa.
Na República do Congo, Denis Sassou Nguesso governa o país há décadas, com um breve intervalo entre 1992 e 1997.
Já a República Democrática do Congo passou por diversas alternâncias de poder desde o fim da ditadura de Mobutu, mas continua enfrentando dificuldades para consolidar instituições estáveis, especialmente devido aos conflitos armados persistentes no leste do país.
Assim, apesar de compartilharem um nome, uma origem histórica e até o mesmo rio, os dois Congos seguiram trajetórias bastante diferentes desde a colonização europeia. 
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