As cachalotes vivem em um mundo sonoro. No escuro do oceano profundo, onde a luz não chega, elas “veem” e interagem principalmente por meio de cliques – estalos curtos, repetidos em sequência.
Por décadas, cientistas trataram esses sons como algo próximo de um código Morse: padrões de cliques separados por intervalos. Agora, um estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B indica que essa comparação é simplista demais. O que as baleias fazem pode estar mais perto de linguagem do que se imaginava.
A pesquisa, liderada pelo linguista Gašper Beguš, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mostra que a comunicação das baleias-cachalote tem uma estrutura que lembra elementos centrais da fala humana.
Não se trata de dizer que elas “falam” como nós, mas os blocos básicos que organizam seus sons seguem princípios surpreendentemente parecidos.
O ponto de partida são os chamados codas: sequências de cliques usadas nas interações sociais. Esses padrões já eram conhecidos e classificados pelo número de cliques e pelo tempo entre eles. Em julho de 2025, a Super publicou uma reportagem detalhada sobre o assunto – Cientistas estão desvendando o dicionário dos cetáceos – e aprendendo a falar “baleiês”. O que o novo estudo acrescenta é a “qualidade” do som dentro de cada clique.
Ao examinar um conjunto de quase 4 mil vocalizações coletadas entre 2014 e 2018 no Caribe, os pesquisadores identificaram dois tipos principais de codas. Em um deles, cada clique apresenta um único pico de frequência; no outro, aparecem dois picos.
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Essa diferença acústica funciona de maneira semelhante às vogais humanas, que mudam conforme a posição da língua e da boca. Por isso, os cientistas passaram a chamá-las de “vogais” das baleias – um tipo equivalente a “a” e outro a “i”.
No estudo, os pesquisadores mostram que essas “vogais” seguem regras comparáveis às da linguagem humana. Em algumas sequências, os dois tipos aparecem com frequência parecida; em outras, um domina. Isso lembra como certas combinações de sons são mais comuns do que outras em línguas humanas.
Outro achado importante envolve a duração dos sons. Dentro de um mesmo tipo de sequência, as “vogais” do tipo “a” tendem a ser mais longas que as do tipo “i”. Na nossa linguagem, algo parecido acontece, já que sons como “a” geralmente duram mais do que “i”.
E, entre os sons do tipo “i”, há dois subgrupos, um curto e outro longo. Essa distinção também existe em várias línguas humanas, desde o latim ao finlandês, em que o tempo de duração de uma vogal pode mudar o significado de uma palavra.
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As baleias também parecem ter “sotaque”. O estudo mostra que indivíduos diferentes produzem os mesmos padrões em velocidades diferentes – algumas “falam” mais rápido, outras mais devagar. É parecido com nós, que temos ritmos próprios de fala.
Há ainda um fenômeno chamado coarticulação, comum na fala humana. Um som é influenciado pelo que vem antes ou depois. Por exemplo, ao dizer “ti” e “ta”, o “t” muda levemente porque a boca já se prepara para a vogal seguinte.
Nas baleias, algo semelhante acontece: o primeiro clique de uma sequência pode ser “puxado” pelo padrão da sequência anterior.
Somados, esses cinco aspectos – distribuição dos sons, duração, variação de comprimento, diferenças individuais e influência entre sons – formam um conjunto organizado, com regras internas. Confira neste vídeo:
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Os cientistas não sabem o que esses sons significam. Diferente das palavras humanas, cujo sentido é conhecido, o conteúdo das “mensagens” das baleias permanece um mistério. O estudo analisa a forma, não o significado.
Mesmo assim, a descoberta muda o ponto de partida. Se a estrutura é tão complexa quanto a da fala, é plausível que exista conteúdo sendo transmitido ali – possivelmente informações sociais, coordenação de grupo ou até algo mais elaborado.
Nos próximos anos, os pesquisadores buscam identificar cerca de 20 tipos de mensagens básicas, ligadas a ações como mergulhar ou descansar. E, quem sabe, um dia entender ou até interagir com essas vocalizações.
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