Uma nova revisão de estudos publicada na última semana classificou o efeito de diversas drogas usadas no tratamento contra o Alzheimer como “trivial”, sugerindo que a eficácia destes medicamentos é baixa ou mesmo nula. A conclusão, no entanto, gerou debate entre especialistas em relação à metodologia utilizada na análise.
O artigo foi publicado pela Cochrane, uma rede global de pesquisadores da área da saúde, e reúne dados de 17 estudos clínicos sobre sete tipos diferentes de drogas anti-amilóides. Os fármacos desse grupo atuam combatendo as chamadas placas beta-amiloide, acúmulos de proteínas encontrados em grandes quantidades no cérebro de portadores do Alzheimer. A ideia é tratar a doença reduzindo essas placas.
Dois dos medicamentos analisados, lecanemabe e donanemabe, já são tratamentos aprovados por agências reguladoras ao redor do mundo, como a Anvisa e a FDA (dos EUA).
Ao todo, foram analisados dados de 20 mil pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve – estágios iniciais do Alzheimer, nos quais as drogas supostamente têm maior eficácia. De acordo com os autores, os anti-amilóides não mostraram efeito significativo sobre a função cognitiva e a gravidade da demência em pacientes com Alzheimer, enquanto a capacidade funcional (a competência para realizar atividades diárias) teve uma melhora “pequena, no melhor dos casos”.
Além da falta de benefícios, os pesquisadores também observaram possíveis efeitos adversos do uso das drogas. Os anti-amilóides “provavelmente causam mais inchaços cerebrais e pequenos sangramentos do que um placebo”, escrevem. Esses efeitos, porém, não levaram a um quadro sério. As consequências de longo prazo ainda seguem incertas.
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“Infelizmente, as evidências sugerem que essas drogas não fazem diferença significativa para os pacientes”, disse, em nota, o neurologista Francesco Nonino, principal autor do estudo. “Há agora um conjunto convincente de evidências convergindo na conclusão de que não há efeito clinicamente significativo”.
Controvérsias
É uma conclusão que tem gerado críticas por parte de outros especialistas – incluindo aqueles mais céticos em relação aos anti-amilóides. O estudo, segundo eles, analisou em conjunto drogas que anteriormente demonstraram resultados muito distintos – agrupando fármacos antigos, rejeitados em estudos clínicos, junto a medicamentos mais novos e já aprovados por agências sanitárias –, mas chegou a uma conclusão única em relação a seus efeitos, sem considerar diferenças cruciais entre os fármacos.
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“Essa revisão está tentando tratar toda uma classe de medicamentos da mesma forma, embora saibamos que diferentes tratamentos anti-amilóide podem atuar de maneiras distintas”, afirma Susan Kohlhaas, diretora de pesquisa da Alzheimer’s Research UK, um grupo de pesquisa do Reino Unido. “Frequentemente, ouvimos de famílias afetadas pela demência que mesmo um atraso de alguns meses no declínio pode proporcionar um tempo valioso e significativo com entes queridos, e isso não deveria ser minimizado”.
Nos Estados Unidos, quatro dessas drogas – bapineuzumab, crenezumab, gantenerumab e solanezumab – nunca chegaram a ser submetidas para a aprovação da FDA, enquanto que o lecanemabe e donanemabe já circulam com o aval da agência, com os respectivos nomes comerciais de Leqembi e Kisunla. Os dois estudos que fundamentaram as decisões da FDA, tomadas entre 2023 e 2024, são os mesmos analisados na nova revisão.
O aducanumab, por sua vez, foi alvo de muita controvérsia no meio científico após sua aprovação condicional pela FDA, em 2021. O processo se deu sem que um estudo clínico sobre sua eficácia fosse publicado em um periódico com revisão de pares, isto é, com análise de cientistas independentes. Além disso, gerou desconfiança a proximidade entre diretores da FDA e representantes da farmacêutica Biogen, responsável pelo medicamento. A produção do aducanumab, comercializado como Aduhelm, foi descontinuada pela empresa em 2024 por falta de evidências de eficácia, além dos riscos de efeitos adversos como edemas (inchaços) e hemorragias cerebrais.
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Sobre a nova revisão, a farmacêutica Eli Lilly, responsável pelo donanemabe (Kisunla), afirma que o artigo se baseou em uma “metodologia inerentemente falha” e “reúne dados de várias terapias direcionadas à amiloide como uma classe, incluindo moléculas que não atingiram os desfechos de seus ensaios clínicos e nunca receberam aprovação regulatória”. A empresa argumenta que “combinar dados de moléculas malsucedidas com medicamentos aprovados dilui artificialmente o benefício observado e produz conclusões em nível de classe que não refletem as evidências de nenhuma terapia individual aprovada”.
Os autores do estudo se mantém ao lado da decisão de agrupar os tratamentos não aprovados com os aprovados. Ao New York Times, o neurologista Edo Richard disse que “todas essas drogas têm como alvo a mesma proteína”, enquanto Nonino afirma que as análises separadas do lecanemab e do donanemab chegaram a conclusões “perfeitamente alinhadas com a estimativa combinada” para todos os medicamentos.
A revisão da Cochrane reforça uma dificuldade corrente na criação de tratamentos contra o Alzheimer: por mais que o acúmulo de placas das proteínas beta-amilóides seja um marcador característico da condição, tratamentos que visam limpar o cérebro dessas placas não parecem surtir efeito no desenvolvimento da doença. Na prática, muitos possíveis tratamentos anti-amilóide, quando conseguem retardar de alguma forma o declínio cognitivo, têm feito isso de maneiras praticamente imperceptíveis.
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Tendo isso em vista, os autores argumentam que a pesquisa do Alzheimer deveria focar em outras abordagens para novos possíveis tratamentos – coisa que já está sendo feita. No ano passado, por exemplo, um estudo publicado na Nature apontou o lítio como uma possível peça-chave na prevenção e no tratamento do Alzheimer.
Para entender melhor a questão em torno dos anti-amilóides, assim como a polêmica que permeou a aprovação do aducanumab, vale a pena ler a reportagem que a Super lançou em janeiro de 2022: “O enigma do Alzheimer”.
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