O governo brasileiro e o governo da Alemanha emitiram, no último dia 20 de abril, uma declaração conjunta sobre a mais recente reunião de alto nível dos dois países. Entre anúncios sobre meio ambiente, economia, tecnologia e geopolítica, os países deram um motivo de comemoração para a comunidade científica e paleontológica: anunciaram a repatriação do fóssil do dinossauro brasileiro Irritator challengeri.
Ele tinha entre seis e oito metros de comprimento, se alimentava de peixes e outros pequenos animais e vivia na Chapada do Araripe, no Ceará, onde, há milhões de anos, havia um grande lago. Seu nome é sugestivo, mas enganoso. Não há nenhuma pista de que o dinossauro Irritator challengeri tenha sido irritante por si só. Mas, na década de 1990, um grupo de pesquisadores alemães se irritou bastante ao estudar a espécie, e acabou descontando no nome dos bichos.
Os pesquisadores – Martill, Cruickshank, Frey Small e Clarke – compraram o fóssil, que consistia em um grande crânio bem-conservado. A venda de fósseis é proibida no Brasil desde 1942, e, justamente por se tratar de contrabando, os pesquisadores não tiveram acesso a detalhes importantes sobre a origem do crânio.
Na paleontologia, entender o local em que os fósseis são encontrados é quase tão importante quanto a análise dos fósseis em si, já que as faixas do solo podem funcionar como cápsulas do tempo e revelar detalhes do ecossistema, como sua idade, a fauna e flora que ali vivia, e muito mais.
Quem vendeu o crânio para os pesquisadores alemães não registrou nada disso. É possível que ele tenha sido encontrado durante a mineração de calcário, que é muito comum na região e frequentemente tromba em registros fósseis de milhões de anos.
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Quando os euroupeus estudaram o achado, concluíram que se tratava de uma espécie nova, ainda desconhecida. Isso era uma ótima notícia: pesquisadores adoram descobrir novas espécies. É uma tarefa científica de muito prestígio. Entretanto, o que os irritou muito foi que, durante a análise, eles descobriram que o crânio, que antes parecia estar tão completo, na verdade havia sido adulterado com isopor.
Estava dado o nome científico do bicho: Irritator challengeri. A primeira parte – Irritator – remete ao sentimento dos pesquisadores ao descobrir a adulteração. A segunda – challengeri –, embora pareça com a palavra “desafiador”, em inglês, homenageia o personagem Professor Challenger, um caçador de dinossauros criado por Sir Arthur Conan-Doyle.
Ele está guardado no Museu de Stuttgart, na Alemanha, desde então, onde também há dezenas de fósseis de aracnídeos e insetos brasileiros. Além da obtenção irregular, há ainda mais um problema: por ter sido usado para definir uma espécie, o fóssil do Irritator é um holótipo. E a legislação brasileira estabelece especificamente que nenhum holótipo brasileiro pode ficar armazenado no exterior.
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Nos últimos anos, a comunidade de paleontólogos brasileiros tem liderado uma grande mobilização para a repatriação dos milhares de holótipos que, como esse, estão longe de casa.
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A primeira grande vitória nesse sentido foi a repatriação do dino Ubirajara jubatus, que também foi retirado irregularmente do Ceará e voltou para lá em 2023. Ele está em exibição no Museu Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, na cidadezinha de Santana do Cariri, no Ceará.
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O paleontólogo Allyson Pinheiro, diretor do Museu, explica que o Irritator ficará em exibição, e acredita que acontecerá com ele algo semelhante ao que aconteceu com o fóssil de Ubirajara (que também é chamado carinhosamente de Bira).
“O Ubirajara virou a Monalisa do Museu, todo mundo vem para vê-lo, nunca conseguimos tirar de exibição”, comenta Pinheiro.
Muitas instituições estrangeiras resistem em devolver o patrimônio, com justificativas que os paleontólogos brasileiros denunciam como colonialistas. Ainda hoje, há centenas de holótipos brasileiros no exterior, e muitas negociações em andamento. Você pode ler mais detalhes sobre esse assunto na reportagem da Super “Como o Brasil se tornou referência na repatriação de fósseis contrabandeados”, de setembro de 2024.
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– (Arte/Superinteressante)
Entretanto, a pressão popular nas redes sociais e na diplomacia entre os países têm funcionado: o País se tornou uma referência mundial na repatriação de fósseis.
“O Irritator é uma de centenas de devoluções de fósseis brasileiros que temos tido nos últimos cinco anos. Algumas destas devoluções têm partido dos próprios museus que não desejam mais ser vistos como receptores de fósseis de origem duvidosa”, diz o paleontólogo Juan Cisneros, da Universidade Federal do Piauí, que foi um dos coordenadores da campanha #IrritatorBelongsToBR (“Irritator pertence ao Brasil”, em inglês).
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Agora, os pesquisadores estão organizando levantamentos de holótipos brasileiros no exterior para novas reivindicações. Cisneros conclui: “Com o seu retorno [do Irritator], o Brasil está enviando uma mensagem forte de que não tolera mais estas práticas. Equipes de todo o mundo são bem vindas para estudar fósseis brasileiros mas devem respeitar as nossas leis e propor colaborações justas com as nossas instituições”.
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