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Introdução
Lee Cronin, diretor de “Evil Dead Rise”, revela detalhes de “Maldição da Múmia”. Ele discute como reinterpretou o monstro, misturando trauma real com a mitologia milenar em seu novo filme, parte de sua “trilogia da identidade distorcida”. Entenda sua visão sobre o terror.
O diretor Lee Cronin, de “Evil Dead Rise”, finaliza “Maldição da Múmia”, seu terceiro longa-metragem e parte de sua “trilogia da identidade distorcida”.
O filme reinventa o mito da múmia, explorando um trauma real: o desaparecimento de uma criança e segredos nunca desenterrados.
Para Cronin, o terror está na perversão do familiar e no amor que se torna sombrio, um tema recorrente em sua obra.
A produção buscou um elenco multicultural e um olhar respeitoso para as culturas, distanciando-se do exotismo.
O diretor promete uma experiência de “montanha-russa” para o público, com uma história que os deixará tocados e entretidos.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Na tradição dos antigos egípcios, o ritual de preservação dos cadáveres se dava no mais absoluto sigilo: para que o espírito pudesse perdurar no plano do pós-vida, era necessário guardar seu corpo, oculto, na privacidade de seu sono eterno.
Ainda assim, ao longo da História, as múmias foram desenterradas, vendidas, expostas, exibidas em museus, dissecadas para plateias de auditórios e trituradas para fazer remédio. No cinema, de novo e de novo, elas foram despertadas de seus sonhos intranquilos, transformadas em um dos monstros mais icônicos de Hollywood.
Ninguém deixa a múmia em paz. Mas, agora, é a múmia quem não deixa Lee Cronin dormir.
Quando conversou com a Super, em março, fazia apenas quatro horas que o diretor irlandês havia dado os toques finais em seu mais novo mergulho no cinema de terror: Maldição da Múmia. Cronin enfrentou noites em claro para finalizar o corte final do filme que chega nesta quinta (16) nos cinemas brasileiros. Tal é a sina dos cineastas: “Você sobrevive na base da adrenalina, bebe o máximo de água que pode e tenta não comer muita besteira. Esse é basicamente o plano: fazer todas as coisas que te fazem mal para tentar lidar com o próprio cansaço”, diz.
Trata-se do terceiro longa-metragem do diretor – o primeiro após seu sangrento Evil Dead Rise (A Morte do Demônio: A Ascensão, de 2023), que levou o cenário urbano para a franquia inaugurada por Sam Raimi em 1981, com The Evil Dead (Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio). Junto com seu primeiro filme O Bosque Maldito (2019), os três formam o que o diretor chama de sua “trilogia da identidade distorcida”. Não à toa: o terror, para Cronin, é o familiar, e todos seus filmes até aqui abordaram a corrupção daquilo que é muito, muito pessoal.
Maldições vêm despertando múmias em Hollywood desde 1932, quando Boris Karloff vestiu os trapos do sacerdote Imhotep pela primeira vez em um filme falado. Mas, agora, a ideia é contar uma história de múmia como nenhuma já feita no cinema – com uma “grande história investigativa”, que coloca o monstro “em contraste com um trauma do mundo real”, segundo o diretor. A trama se passa entre os EUA e o Egito: Katie (Natalie Grace), a filha desaparecida do jornalista Charlie Cannon (Jack Reynor), é encontrada após oito anos enterrada dentro de um sarcófago milenar, viva e… diferente…
No roteiro, Cronin tenta seguir aquilo que acredita ser a essência da múmia: “É história. São coisas enterradas. São segredos. Na verdade, são coisas que nunca deveriam ter sido encontradas”, diz.
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Confira a seguir nossa conversa com o diretor:
Super: Este é o seu segundo filme consecutivo em que a principal ameaça é uma mummy [em inglês, ‘mamãe’ ou ‘múmia’, dependendo do contexto]. Como é vir de Evil Dead Rise para esse novo projeto?
Lee Cronin: Eu até cheguei a pensar nisso. Na Irlanda, às vezes chamamos nossas mães de “mum” ou “mummy”, e num dado momento eu pensei em chamar este filme de “Mummy” apenas, mas pode ser que refletisse demais esse aspecto parental.
Esse filme é bem diferente do meu filme anterior. É uma história bem diferente, um tom bem diferente, personagens bem diferentes. Mas ele também carrega muito do meu estilo de criação e minhas vontades. Acho que quem gostou de Evil Dead Rise vai curtir bastante esse. Mas o filme também traz muitas experiências diferentes: personagens pé no chão, uma grande história investigativa que se passa em diferentes linhas do tempo e lugares, e com um conjunto bastante multicultural de personagens e mitologias.
O terror é um meio artístico interessante porque, com ele, você pode falar sobre vários problemas que nos afetam na intimidade. Por meio da mitologia da múmia, o que você realmente queria explorar com esse filme?
Para mim, a questão é sempre: ‘o que a mitologia da múmia significa para você?’ ou ‘o que é a mitologia da múmia?’. Para mim, é história. São coisas enterradas. São segredos. Na verdade, são coisas que nunca deveriam ter sido encontradas.
Por mais que existam múmias em museus – por mais que, muitos anos atrás, as pessoas saqueassem tumbas e triturassem corpos para transformá-los em remédios – essas pessoas nunca quiseram ser encontradas. Era para ser algo sacrossanto, de alguma forma. Não exposto.
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Para mim, esse é um ponto de partida muito interessante, porque desenterrar algo que nunca deveria ter sido encontrado suscita muitas perguntas. E aí, na minha história, você adiciona o fato de que existe uma criança desaparecida: se alguém foi sequestrado ou levado, e não existe recompensa para que essa pessoa seja devolvida, então o resultado é que ela nunca mais será encontrada. Isso cria muitas perguntas que precisam ser respondidas.
Eu vi uma forma interessante de usar a mitologia da múmia para colocá-la em contraste com um trauma do mundo real encarado por uma família, e a partir daí eu pude começar a contar uma história.
Esse terror doméstico ou familiar parece ser um tema de interesse para você, porque Evil Dead Rise também fala sobre isso.
Sim. Lembro do slogan no pôster do meu primeiro filme, The Hole in the Ground (O Bosque Maldito, 2019): “tenha medo do familiar”. Que também se conecta com os outros filmes – talvez isso seja o que eu chamaria de minha “trilogia da identidade distorcida” (“Twisted identity trilogy”). É muito fácil temer o que é desconhecido, mas o que aconteceria se você fosse colocado em uma situação em que você sente medo de algo que é familiar para você?
A perversão de uma pessoa dentro de uma estrutura familiar, de alguma forma, é algo super interessante para mim, e tem um motivo pelo qual eu continuo escrevendo essas histórias. É uma noção muito assustadora: quando o amor se transforma em algo extremamente sombrio, ou quando você continua amando algo sombrio porque quer curá-lo. Acho que é um ótimo ponto de partida para poder tocar os instrumentos das histórias de terror, para prender e aterrorizar o público.
Crianças também são uma presença forte em seus filmes. Você já trabalhou com atores mirins antes, e parece que o monstro desse filme também vai ser uma criança.
Bom, sim… sabe, não quero revelar muito… Ela certamente é uma criança num dado momento, mas não necessariamente é uma criança no final do filme. Há também outras crianças no filme que são arrastadas para dentro das circunstâncias malignas que vão se desenrolando.
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Sobre trabalhar com atores mirins e inseri-los nesses papéis: por causa dos filmes que me influenciaram quando eu era mais novo – de Poltergeist a E.T., junto a tantos filmes da Amblin [produtora de Steven Spielberg] – eu sempre penso que colocar essa inocência juvenil nesses tipos de histórias de gênero dá um ótimo peso à narrativa.
E como foi dirigir Natalie Grace?
Foi uma excelente jornada, porque, para a Natalie, foi a primeira vez que ela participou de um projeto assim. Ela é relativamente novata, mas tinha um apetite e determinação enorme para fazer algo único e especial. Estou muito animado para que as pessoas vejam o que ela faz no filme e a maneira como ela mesma entrega tudo. Essa é, eu penso, uma das coisas mais impressionantes. Ela entrega uma atuação com diferentes registros para diferentes personagens, uma performance física enorme, assustadora.
É sempre muito bom trabalhar com alguém que quer aprender, porque eu também estou sempre aprendendo, como cineasta. Cada projeto que você faz é como fazer outro mestrado, de certa forma, no sentido de descobrir como contar a sua história.
Trabalhar com ela foi muito empolgante. Tínhamos um elenco ótimo e bem grande. Muito maior do que nos meus filmes anteriores. Mas a Natalie tinha um papel bem, bem específico na narrativa e uma jornada muito particular pela qual ela teria que passar, tanto fisicamente quanto na preparação para o papel.
Você falou sobre aprender com as pessoas com quem trabalha. Adaptar a múmia para os dias atuais é interessante porque, historicamente, o conceito está muito ligado a um certo exotismo em relação às culturas do Oriente. Você trabalhou com pessoas egípcias e árabes durante a produção desse filme? Como isso influenciou seu processo criativo?
Foi algo muito importante para mim, desde o início, garantir que houvesse um engajamento intercultural no filme. E conseguimos um elenco egípcio incrível: May Calamawy, May Elghety, Husam Chadat, Hayat Kamille – atores realmente fantásticos.
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O que foi realmente excelente foi esse intercâmbio constante com cada um deles, às suas próprias maneiras – incluindo as outras pessoas que trouxemos para consultar sobre cultura. Até na pós-produção, quando eu tinha que escolher alguma música para o filme, eu ligava para o meu elenco e perguntava: “o quão popular essa música era no Egito, nessa época?”, mesmo que se trate de algo muito moderno.
Foi importante para mim porque, no passado, filmes assim nunca foram tão representativos quanto poderiam ser. Esse filme se passa entre dois países, dois lugares diferentes – e, como já disse, em diferentes tempos. Também foi um desafio dirigir cenas em árabe sem falar o idioma, tendo que quase reaprender as falas que eu mesmo escrevi para entender as nuances do que estava sendo dito.
Culturalmente, várias culturas influenciam na narrativa: a personagem da avó vem do México, e a filha dela é metade mexicana, metade espanhola. Por meio disso, eu trago alguns elementos religiosos bem interessantes. Há uma mistura de antigo e moderno. E, quando eu olho para todo o elenco, e todos os lugares diferentes de onde eles vieram, eu vejo algo bem eclético e bem empolgante.
Quando as pessoas saírem do cinema depois de ver seu filme, com que impressão você espera que elas fiquem?
“Eu nunca vi um filme assim antes.” Isso seria importante. “Certamente nunca vi um filme de múmia assim.” Mas, no fim das contas, espero que as pessoas se sintam entretidas e tocadas de alguma forma.
Lembro da estreia europeia de Evil Dead Rise. Foi em Dublin, então eu pude convidar muitos conhecidos. Antes da sessão, encontrei muitos amigos e familiares e todos tinham se vestido de maneira muito elegante para a noite; mas, no final, quando todo mundo saiu, as pessoas estavam suadas, despenteadas, com os botões de suas camisas abertos, e foi fácil para mim reconhecer isso porque tratavam-se de pessoas que eu já conhecia. Em última instância, eu gosto dessa ideia de fazer as pessoas sairem do cinema sentindo que passaram por uma montanha-russa.
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S: Você tem trabalhado com grandes nomes do terror. Da última vez foi Sam Raimi, agora James Wan (diretor de A Invocação do Mal) e Jason Blum (fundador da produtora Blumhouse). Como foi trabalhar com eles? Houve limitações ou eles te deixaram você pirar?
Acho que bons produtores sabem que, quando escolhem um cineasta com quem farão um filme, precisam confiar nele. Não faz sentido contratar os Sex Pistols e tentar produzi-los como se fossem uma boy band. Você precisa deixar as pessoas serem quem são.
Jason e James foram excelentes colaboradores. Mas também, como produtores, assim como meus próprios produtores, eles sabem o que eu faço, então eles estão ali para apoiar o que eu fizer e me ajudar a fazer isso da melhor forma possível.
Depois desse filme, o que vem por aí?
Um grande cochilo.
Boa pergunta. Sinceramente, tenho alguns projetos diferentes, mas o interessante do cinema é não saber bem o que vem depois. Quando terminei Evil Dead, eu não fazia ideia de que eu faria um filme de múmia.
Já fiz três filmes de monstros seguidos, de formas diferentes, então acho que estou mais interessado em uma história de fantasma agora. Mas também tenho olhado para outras áreas. Venha o que vier, quero pintar em uma tela bem grande. Gostei bastante de trabalhar com algo mais amplo nesse filme, bem maior que um terror de localidade única, como foi o caso nos meus dois primeiros filmes.
Então, para responder essa pergunta de maneira direta, eu diria que meu próximo passo seria pintar a história certa numa tela bem vasta.
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