Guardiões da memória: os escritores que ajudam a preservar as histórias indígenas

Guardiões da memória: os escritores que ajudam a preservar as histórias indígenas

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Introdução
A literatura indígena brasileira vive uma grande fase, transpondo ricas tradições orais para o escrito. A matéria explora a tensão entre preservar essas narrativas e o impacto cultural de registrá-las, com destaque para a ascensão de autores indígenas e iniciativas de valorização dos saberes ancestrais.

A criação de “Macunaíma”, precursor na transposição de narrativas orais indígenas
O dilema da escrita: registrar para preservar saberes ancestrais ou arriscar descaracterizar a cultura oral.
A ascensão de autores indígenas como Daniel Munduruku e Ailton Krenak, que conquistam espaços na literatura nacional.
O debate sobre a escrita como “fetiche do branco” vs. “estratégia política e cultural” para dar voz a povos silenciados.
Iniciativas de museus, tecnologia (IA) e Unesco para revitalizar e documentar as diversas línguas e culturas originárias.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Texto Edison Veiga | Edição Rafael Battaglia | Ilustração Curumiz | Design Rafaela Reis
No livro Vom Roraïma zum Orinoco, o etnólogo e explorador alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) transpôs para a linguagem escrita uma série de narrativas míticas indígenas da região amazônica, obtidas em suas expedições no Brasil.

Mário de Andrade (1893-1945) leu o livro e se encantou. Ficou, de acordo com suas próprias palavras, “desesperado de comoção lírica” quando percebeu que o protagonista de uma dessas histórias, Macunaíma, “era um herói sem nenhum caráter nem moral nem psicológico”.

Inspirado pela leitura, o autor lançou em 1928 seu livro mais famoso, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. A obra é um dos principais expoentes do modernismo brasileiro, tornou-se um marco da literatura do País (e presença constante em listas de vestibular).
Mas o que nem Andrade nem ninguém à época do lançamento poderia imaginar é que, hoje, Macunaíma pode ser visto como um precursor (ainda que involuntário) da transposição da literatura oral indígena para a literatura escrita brasileira.
Os povos que habitavam o atual território brasileiro antes dos portugueses baseavam sua cultura em tradição oral, e não no registro escrito. O problema é que, com a dizimação de muitas populações indígenas, as histórias míticas constitutivas dessas etnias também desapareceram.
Como resultado, há uma imensa literatura indígena que, por não ter ganhado forma de livro, ainda é pouco absorvida pela sociedade eurocêntrica que acabou fazendo daqui o Brasil. É um problema secular – e persistente.

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Por sorte, isso está começando a mudar, graças a um movimento de valorização dos saberes e das culturas dos povos originários e também de uma maior presença de autores e autoras de origem indígena na indústria cultural brasileira.
Alguns desses escritores integram o primeiro patamar da literatura brasileira contemporânea. Em março, Daniel Munduruku tomou posse na Academia Paulista de Letras. Há dois anos, Ailton Krenak, do best-seller Ideias para Adiar o Fim do Mundo, entrou para a Academia Brasileira de Letras. Eles foram os primeiros indígenas a ingressar em ambas as instituições.
Talvez o pioneiro desse fenômeno, o ambientalista Kaká Werá Jecupé, indígena tapuia, lançou em 1998 o livro A Terra dos Mil Povos: história indígena do Brasil contada por um índio. Ao narrar a história do País a partir do ponto de vista individual de um representante indígena, ele escancarou não só como os nativos leem o mundo mas também a pluralidade deles.
Estima-se que, quando os colonizadores portugueses chegaram ao litoral brasileiro, em 1500, havia de 1 mil a 1,5 mil etnias diferentes habitando o território, falantes de pelo menos 1 mil idiomas diferentes. Hoje, de acordo com o IBGE, são 305 povos, que falam 274 línguas.

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Resgatar para preservar
Desde o livro de Kaká Werá Jecupé até hoje, não faltam exemplos de outros registros autênticos da memória oral indígena. O próprio tapuia escreveu outros, entre eles O Mito Tupi-Guarani da Criação e O Trovão e o Vento: um caminho de evolução pelo xamanismo tupi-guarani.
“Resgatar histórias orais de povos originários é fundamental não apenas para preservar culturas mas também para enriquecer e transformar a própria literatura”, comenta o historiador Carlos Trubiliano, professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e ex-assistente técnico na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
“A tradição oral é carregada de visões de mundo, memórias coletivas, espiritualidades, conhecimentos com que muitas vezes o mundo ocidental nunca teve contato”, continua. “A literatura tradicional ocidental foi construída sobretudo a partir do referencial europeu. Quando a literatura incorpora as narrativas indígenas, o leitor pode acessar outros modos de ver e entender o mundo. Por exemplo, na cosmologia dos povos originários não existe uma relação hierárquica entre o humano e a natureza.”
Para ilustrar seu ponto, Trubiliano cita A Queda do Céu: palavra de um xamã yanomami, livro de 2010 organizado pelo antropólogo francês Bruce Albert a partir de depoimentos colhidos do ianomâmi Davi Kopenawa. “Tornou-se amplamente conhecido por denunciar as violências sofridas pelo seu povo após o contato com os não indígenas”, diz o historiador.

Da esquerda para a direita: Edson Kayapó, Olívio Jekupé, Auritha Tabajara e Kerexu Mirim. (Curumiz/Superinteressante)

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Há muitos outros casos interessantes. Das etnias maraguá e sateré-mawé, Yaguarê Yamã é autor de Kurumi Guaré no Coração da Amazônia, que aborda de uma maneira lúdica e representativa os grafismos indígenas de povos amazônicos para, em mescla com a memória do narrador, trazer histórias indígenas importantes. Já em O Karaíba: uma história do pré-Brasil, Daniel Munduruku lapida vozes para aqueles que jamais tiveram a palavra registrada.
Aqui chegamos a um ponto fundamental da discussão. Se registrar as histórias orais em texto escrito é uma forma de salvaguardá-las, ao mesmo tempo isso não seria um desrespeito à própria cultura que não tem a escrita em sua base?
Para o historiador e antropólogo Giovani José da Silva, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), essa questão aparece inclusive quando se diz que a transposição do oral para o escrito seria uma ação de resistência dos indígenas diante do apagamento cultural. “A escrita é um fetiche do branco”, diz ele, com o conhecimento de quem convive há 35 anos com populações indígenas, de diferentes etnias, em trabalhos de campo, e domina três idiomas nativos.
“Na medida em que vamos registrando essas histórias no papel, estamos dizendo que a escrita é superior à oralidade”, argumenta o professor. “Deveríamos nos preocupar com outras formas de registro.”
Silva conta que já observou um impacto negativo dessa transposição, sobretudo nos indígenas mais velhos. Ao verem a materialização em livro dos mitos de suas culturas, eles costumam sentir que perderam o papel social de passar a tradição adiante. A morte do contador de histórias.

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Outra queixa de alguns indígenas é de que a história escrita se torna estanque, sempre contada da mesma forma – ao contrário da memória oral, sujeita a ajustes e transformações.
Por outro lado, conforme lembra o historiador Trubiliano, também há o entendimento de que os indígenas estão tendo espaço para ocupar “um território simbólico que, por muito tempo, lhes foi negado”. Nesse sentido, a escrita é “estratégia política e cultural” e contribui para “preservar memórias e narrativas diante de longos processos de silenciamento e apagamento”.
“A produção literária é exatamente isso: ela é o conhecimento tradicional. A literatura que nós, escritores indígenas, produzimos está diretamente vinculada à oralidade”, diz o escritor e historiador Edson Kayapó, do povo mebêngôkre. “Antes da literatura, para nós, vem a oralidade. Ela é o conhecimento supremo. A partir dela, produzimos literatura escrita, arte e audiovisual. É um conhecimento totalmente baseado nos saberes tradicionais.”
Recentemente, Kayapó publicou o livro Fogueira, Mãe Curandeira, justamente sobre os conhecimentos antepassados que ele recebeu via tradição oral.
Apesar de suas ressalvas, Silva reconhece a importância da revitalização – ele prefere esse termo a “resgate” – da memória oral indígena. O professor da Unifap cita como exemplos importantes tanto o trabalho realizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) quanto a premiada coleção de livros infantis com mitos tradicionais indígenas que a editora Melhoramentos publicou nos anos 1980, chamada de Série Morená.

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Até mesmo a obra do historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva (1931-2023) tem sua relevância nesse contexto, desde que não seja revisitada com um olhar anacrônico. Em 1957 ele publicou o livro Antologia de Lendas do Índio Brasileiro, em que registrou histórias míticas como a da origem da mandioca e do guaraná, a partir de narrativas orais colhidas em campo.
À luz contemporânea, é possível problematizar – e não só porque a escrita parte do ponto de vista de um homem branco. Logo no título, Alberto chama de “lenda” o que seriam narrativas míticas, no sentido de que muitos indígenas acreditam nessas histórias tanto quanto um judeu pode acreditar que Moisés abriu o Mar Vermelho ou um cristão crê que Jesus ressuscitou dos mortos ao terceiro dia.
Para estudiosos como Silva, não é apenas uma questão terminológica. Há uma camada semântica essencial nesse vocabulário. As narrativas míticas de um povo guardam crenças fundamentais sobre a maneira como cada grupo de pessoas entende o mundo. É fé. São os mitos que explicam as coisas como elas são. Chamar isso de lenda pode achatar tais histórias sob o prisma da “verdade” do outro.
Além disso, Alberto singulariza a diversidade. “Traz o ‘índio genérico’, e não os povos indígenas no plural, como se tudo fosse uma coisa só”, diz o antropólogo Silva.
“Mas o aspecto positivo”, comenta o professor, “é que houve a recuperação dessas histórias e o registro para a posteridade. Ou seja: tem apagamento, mas ao mesmo tempo tem registro, ainda que precário”.

Os livros preservam a memória indígena, mas isso não significa abandonar a tradição oral, que tem tanto valor cultural quanto a escrita. (Curumiz/Superinteressante)

Resistência
Autor de 35 livros, o guarani Olívio Jekupé define sua produção literária como forma de resistência. E chama para os indígenas o protagonismo desse processo.
“Começamos a escrever porque percebemos que a literatura poderia ajudar a registrar nossas histórias e também a fazer críticas sociais”, diz Jekupé. “Antes, muitas histórias sobre os povos indígenas eram registradas apenas por pessoas de fora. Hoje somos nós que escrevemos sobre a nossa história.”
Entre suas obras, estão narrativas que ele ouviu da tradição oral, como os enredos dos livros A Mulher que Virou Urutau e História de Piragui, ambos escritos em parceria com a sua esposa, Maria Kerexu. “Resolvi registrá-las para que não se perdessem.”
Também guarani, a escritora Kerexu Mirim, filha de Olívio e Maria, vê no texto escrito a chance de “manter vivas as histórias”. “Nossa cultura é dinâmica, então algumas coisas temos de usar a nosso favor para a preservação”, constata.
Autora de 15 livros, a escritora Auritha Tabajara produz pensando no futuro: “Escrevo para que crianças indígenas reconheçam suas histórias e que crianças não indígenas conheçam outros jeitos de ver o mundo. E para que a memória dos nossos povos continue viva”.
Iniciativas para preservar línguas, saberes, culturas e literatura indígenas têm surgido em paralelo ao entendimento da importância de tais povos na formação do que hoje chamamos de brasileiro. No ano passado, o Museu da Língua Portuguesa e o Museu de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) se uniram na criação do Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, voltado para pesquisa, preservação e difusão dos idiomas originários. Segundo os coordenadores do projeto, calcula-se que 20% das línguas indígenas ainda praticadas no País jamais tenham sido estudadas academicamente.
“A escrita deriva da fala, em qualquer língua”, diz a linguista Luciana Storto, coordenadora do projeto e professora na USP. “Esse trabalho dialoga diretamente com o fortalecimento das literaturas indígenas, porque toda literatura nasce de uma língua. Ao reconhecer e valorizar as línguas originárias, o museu ajuda a ampliar nossa visão sobre o que é a cultura brasileira”, completa o historiador Trubiliano.
Storto lembra que a iniciativa se baseia em trabalho com comunidades indígenas por meio de captação em áudio e vídeo. Esses registros ficam arquivados e, eventualmente, podem se tornar ponto de partida para outros produtos, inclusive livros. “É um esforço notável”, diz Giovani José da Silva.
“O linguista estuda a fala, e não a escrita, já que a fala em qualquer língua é um objeto natural que deve ser descrito e explicado, enquanto que a escrita é uma criação posterior, mas que tem a vantagem de ficar para a posteridade, enquanto que a fala é efêmera”, contextualiza Storto.
Além da academia, o mercado também responde ao movimento. A editora PeraBook criou recentemente o projeto Vozes Originárias, uma coleção de livros que reúne autores e ilustradores de 19 etnias diferentes. Segundo a editora Luciane Ortiz, houve duas preocupações iniciais: garantir uma certa diversidade entre os povos e desconstruir estereótipos.
Ortiz reconhece que “a oralidade é muito importante” nas culturas indígenas e diz que, na série que ela coordena, houve um cuidado na transposição do texto falado para o escrito de modo a respeitar o máximo possível esses traços. Uma mesma palavra, por exemplo, pode ser publicada com grafias diferentes, de acordo com as preferências dos autores da obra.
Há três anos, a empresa de informática IBM patrocina um projeto da USP que usa tecnologia para estudar línguas nativas do Brasil. É um trabalho colaborativo que usa técnicas de processamento de linguagem natural e ferramentas de IA para que povos indígenas consigam escrever suas línguas de forma eficaz. O embrião do projeto foi realizado com a aldeia Tenondé Porã, no extremo sul do município de São Paulo. Mas a ideia é expandir, com especial atenção aos idiomas que correm mais risco de desaparecer.
Na esfera global, o Brasil tem uma importância–chave nesse fenômeno. A Unesco determinou um olhar prioritário para as línguas originárias na década de 2022-2032 – e a linguista Altaci Kokama, da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora de promoção de políticas linguísticas do Ministério dos Povos Indígenas, é quem preside essa força-tarefa global.
Mais do que conhecerem o passado de seus povos, escritores de origem indígena têm lugar de fala. Além de autores, são também os protagonistas dessa história.
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