Johann Sebastian Bach teve 20 filhos em dois casamentos. Metade deles morreu antes de completar 5 anos – nada fora do normal; a taxa de mortalidade infantil da Alemanha no século 18 era mesmo algo próximo dos 50%. Dos dez sobreviventes, quatro seguiram os passos do pai na música (todos meninos, claro; meninas não podiam ter carreiras).
Johann Christian Bach, o caçula, se mudou para Londres com 26 anos, em 1762, e curtiu a vida de nepo baby. Deu aulas à família do rei Jorge III, trocou figurinhas com o jovem Mozart e foi um pioneiro da indústria musical em pelo menos dois aspectos: fez alguns dos primeiros shows com venda de ingressos para o público – até então, concertos só ocorriam na corte – e abriu o primeiro processo de direitos autorais da história da música.
A própria ideia de direitos autorais era novidade nesse tempo. A única lei de propriedade intelectual que existia na Europa havia sido publicada na Inglaterra em 1710. Ela garantia 14 anos de proteção, renováveis por outros 14 anos caso o autor ainda estivesse vivo. E não mencionava partituras, que eram a única forma de distribuir música – ainda não existiam gravações.
Christian Bach processou duas editoras que estavam publicando suas peças sem autorização, argumentando que a lei de 1710 também deveria se aplicar a composições, e não só a livros ou peças de teatro. A Justiça concordou, e, com essa decisão, nasceu um mercado que, hoje, está em um auge histórico.
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Entre 2019 e 2025, gravadoras e algumas das maiores firmas de Wall Street compraram pelo menos US$ 23,1 bilhões em direitos autorais. É pouco diante das somas que essas empresas movimentam em outros setores – a BlackRock, a maior dentre os titãs das finanças, administra US$ 7,7 trilhões só em ações de empresas, um bolo que inclui 7,9% da Apple e 7,6% da Microsoft.
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Para fins de comparação, os US$ 600 milhões que a BlackRock pagou no último mês de junho pelo catálogo de 24 mil músicas da gravadora canadense Anthem – que inclui hits de Britney Spears, Justin Timberlake e Rush – equivalem a só 0,008% disso (sendo mais preciso, quem comprou foi a Influence Media Partners, uma empresa parceira da Black Rock, mas essa minúcia não vem ao caso).
Apesar das ordens de magnitude de diferença, a lógica por trás é a mesma. Uma ação é um papel que lhe dá direito a parte do lucro de uma empresa. Os direitos de um artista, por sua vez, dão royalties toda vez que a música toca no Spotify, em um karaokê, em um filme etc. Assim como empresas saudáveis dão mais lucro e mais dividendos, artistas populares dão mais royalties.
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Uma característica dos royalties é que eles não são tão sensíveis à geopolítica. Os ataques de Israel e EUA ao Irã devastaram o mercado de petróleo, gás natural e fertilizantes, mas pouco ou nada mudou na popularidade de Michael Jackson.
Investidores gostam de diversificar para se blindarem, e a música é um mercado com ciclos próprios, que pode crescer enquanto o resto cai ou vice-versa. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi) calcula que, para cada 1% de oscilação no mercado de ações, o retorno de direitos sobre músicas flutue apenas 0,07%. É uma taxa impensável para outros setores.
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David Bowie previu isso em 1997 quando lançou os Bowie Bonds, que eram títulos de renda fixa: você fazia um empréstimo ao artista e recebia de volta com juros ao fim do prazo; tudo pago com royalties. Mas era mais um meme do que um fundo sério. O interesse de Wall Street pelos catálogos só cresceu a partir dos anos 2010. De 2015 para 2016, o total investido por ano em direitos autorais subiu de US$ 100 mi para US$ 900 mi. Hoje, a conta está na casa dos bilhões.
Por que só agora? Faltava uma peça: o streaming. No tempo da mídia física, os ouvintes pagavam apenas uma vez por um objeto que permitia um número ilimitado de reproduções. E no auge da pirataria, nos anos 2000, não pagavam nada (rs). Hoje, por outro lado, toda vez que você dá play em uma faixa, o artista ganha algo entre US$ 0,003 e US$ 0,005 do Spotify. Fazendo uma conta de guardanapo, a Taylor Swift, com uma média de 47 milhões de streams diários, ganha no mínimo US$ 141 mil por dia.
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Quanto mais antigo um artista, mais estável sua base de fãs – e, por tabela, a remuneração do streaming. Uma consequência é que ficou mais barato e sensato fazer dinheiro na música investindo em catálogos antigos do que tentando a sorte com compositores novos.
A proliferação de cinebiografias musicais nostálgicas – em sua maioria, de mérito artístico duvidoso ou inexistente – é uma das formas mais eficazes de ordenhar royalties de direitos já adquiridos. Em muitos casos, o estate (os membros da família e empresários que cuidam da imagem do artista morto) entra com os direitos em troca de participação na produção e nos lucros. Foi o que aconteceu em Michael, por exemplo. E deu certo: das dez músicas mais tocadas no Spotify em abril, quatro eram do Michael Jackson.
A Universal pagou US$ 300 milhões pelos direitos de mais de 600 composições de Bob Dylan em 2020, enquanto a Sony desembolsou US$ 550 milhões pela obra de Bruce Springsteen em 2021. Ambos viraram filme em seguida, não por coincidência. O Kiss vendeu catálogo, marca e propriedade intelectual à sueca Pophouse por mais de US$ 300 milhões em 2024. A Hipgnosis Songs Fund, fundada por Merck Mercuriadis, ex-empresário do Elton John, gastou cerca de US$ 2,2 bilhões comprando direitos de Justin Bieber, Shakira, Neil Young e da banda Red Hot Chili Peppers.
“Se você é músico, nunca houve um momento melhor para estar morto”, escreve o crítico Ted Gioia, ex-professor de Stanford. “Não faz muito tempo, Hollywood faturava milhões de dólares com filmes que traziam músicas totalmente novas. Famílias iam assistir a O Mágico de Oz ou O Rei Leão, e se apaixonavam por canções que nunca tinham ouvido antes.”
Toda canção que é nostálgica hoje já foi um lançamento um dia. E, se a indústria não apostar em artistas novos hoje, ela não terá hits nostálgicos para explorar daqui a 30 ou 40 anos. Wall Street colhe o lucro dos gênios do passado sem plantar novos gênios no presente. Em uma cultura pop movida a saudosismo, a maior ousadia, ironicamente, é fazer como se fazia antigamente: lançar algo novo em vez de contar com as vacas gordas de sempre.
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