Quase 40 anos depois do pior acidente nuclear da história, a região de Chernobyl se tornou um lugar aparentemente improvável para a vida selvagem florescer.
Após a explosão do reator da usina nuclear, em 1986, cerca de 120 mil pessoas foram retiradas da área, que passou a ter acesso rigidamente controlado por causa da contaminação radioativa.
Sem cidades em expansão, agricultura ou trânsito constante de pessoas, as florestas avançaram sobre antigas áreas urbanas, e animais como lobos, linces, cervos e raposas voltaram a ocupar o território.
Mas esse processo de recuperação da natureza sofreu uma nova interrupção em 2022, quando tropas russas invadiram a Ucrânia e ocuparam por 36 dias a Zona de Exclusão de Chernobyl (a área evacuada e isolada ao redor da usina).
Agora, um estudo publicado na revista Science mostra que esse curto período foi suficiente para alterar o comportamento de diversos mamíferos que vivem na região.
“Nossos resultados fornecem informações sobre como a vida selvagem reage a conflitos armados em tempo real. A guerra não afeta apenas os humanos”, disse a bióloga Svitlana Kudrenko ao The New York Times.
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A pesquisa só foi possível porque o projeto começou antes da guerra. Em 2020, Kudrenko e seus colegas instalaram dezenas de armadilhas fotográficas na Zona de Exclusão para estudar a biodiversidade da região, especialmente a população de lince-eurasiático.
Essas câmeras são acionadas automaticamente por sensores infravermelhos sempre que um animal passa em frente ao equipamento, registrando imagens sem interferir em seu comportamento.
Quando a invasão russa começou, em 24 de fevereiro de 2022, os equipamentos continuaram funcionando.
Durante pouco mais de um mês, as tropas utilizaram a área como base militar. Tanques circularam pelas estradas e florestas, trincheiras foram escavadas, minas terrestres foram enterradas e houve explosões, bombardeios e incêndios.
Depois que as forças russas deixaram Chernobyl, em 1º de abril, os pesquisadores conseguiram recuperar os cartões de memória de 31 câmeras, com apoio das Forças Armadas da Ucrânia, que antes precisaram remover minas espalhadas pela região.
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As imagens registraram continuamente a movimentação dos animais antes, durante e depois da ocupação militar. Para saber se as mudanças coincidiam com momentos mais intensos da guerra, os cientistas também criaram um índice diário de intensidade do conflito.
Esse índice foi elaborado a partir de entrevistas com 25 pessoas, entre funcionários da usina, moradores da zona de exclusão e habitantes das áreas vizinhas. Cada dia recebeu uma nota de zero a dez.
A escala levava em conta desde a passagem de veículos militares até bombardeios de artilharia e ataques aéreos. Os pesquisadores também incorporaram dados de satélite que identificavam incêndios e outros focos de calor provocados pelos combates.
Ao todo, o estudo analisou registros de 11 espécies de mamíferos, incluindo veados-vermelhos, corços (espécie específica e menor de veado), raposas-vermelhas, javalis, lebres, lobos e linces.
Mudanças comportamentais
Antes de analisar os dados, os pesquisadores imaginavam que os animais passariam a evitar ainda mais a presença humana e concentrariam suas atividades durante a noite.
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Ocorreu exatamente o contrário para algumas espécies. Os veados-vermelhos, por exemplo, passaram a aparecer mais durante o dia e reduziram sua atividade noturna conforme os confrontos se intensificavam. As raposas-vermelhas mostraram uma tendência semelhante.
Já os corços seguiram um caminho diferente. Eles foram registrados cada vez menos pelas câmeras à medida que a intensidade da guerra aumentava.
Imagem de um corço capturada por armadilha fotográfica. (Sociedade Zoológica de Frankfurt e Reserva da Biosfera Ecológica e de Radiação de Chernobyl – Programa Polissia Selvagem/Divulgação)
A explicação está no comportamento típico de cada espécie. Segundo Kudrenko, os corços costumam reagir ao perigo permanecendo imóveis e escondidos na vegetação.
Os veados-vermelhos fazem o oposto: tendem a fugir rapidamente quando percebem uma ameaça.
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Como esses cervos vivem principalmente em áreas abertas, justamente onde houve maior circulação de tropas e veículos militares, é provável que tenham se deslocado com mais frequência para escapar do conflito. Isso aumentou as chances de serem registrados pelas câmeras.
As lebres-pardas também mudaram de comportamento. Nos dias em que imagens de satélite indicavam incêndios relacionados aos combates, elas passaram a circular mais durante a noite. Segundo Kudrenko, isso pode indicar uma tentativa de escapar das áreas atingidas pelo fogo.
Já os lobos-cinzentos e linces-eurasiáticos apresentaram poucas mudanças detectáveis. Os pesquisadores levantam duas possibilidades para explicar esse resultado. A primeira é que essas espécies apareceram poucas vezes nas câmeras, dificultando a identificação de padrões.
A segunda é que a própria dimensão da Zona de Exclusão, uma área de cerca de 2.600 quilômetros quadrados, ainda oferece espaço suficiente para que esses animais evitem os locais mais afetados pela atividade militar.
Imagem de uma raposa capturada por armadilha fotográfica. (Sociedade Zoológica de Frankfurt e Reserva da Biosfera Ecológica e de Radiação de Chernobyl – Programa Polissia Selvagem/Divulgação)
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“Nossos resultados mostram que os padrões de atividade dos mamíferos, particularmente sua atividade noturna, mudaram durante a intensificação do conflito armado”, disse o ecólogo Marco Heurich, coautor do estudo, em comunicado.
“Isso aponta para uma transformação mais ampla da Zona de Exclusão de Chernobyl, de um ecossistema que, na ausência de perturbação humana, havia se recuperado do desastre do reator, para uma paisagem militarizada na qual o uso do habitat e o comportamento da vida selvagem mudaram”, acrescentou.
Vale ressaltar que ainda não é possível saber se essas mudanças terão consequências duradouras para as populações de animais da região.
O estudo analisou apenas alterações de comportamento. Outros possíveis impactos da guerra, como destruição de habitats, poluição causada pelo conflito ou mortes diretas de animais, ficaram fora da pesquisa.
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