Por alguns dias, uma pequena cidade litorânea da Austrália viveu um mistério digno de filme de ficção científica. Seis grandes esferas metálicas apareceram na areia de Forrest Beach, no estado de Queensland, despertando a curiosidade dos moradores e levando equipes de emergência a isolar parte da praia.
As brincadeiras sobre uma possível visita extraterrestre logo tomaram conta das redes sociais. Mas uma explicação agora veio da Agência Espacial Australiana (ASA): as “bolas misteriosas” provavelmente são destroços de um foguete que reentrou na atmosfera terrestre.
Os primeiros objetos surgiram em 3 de julho. Nos dias seguintes, outras esferas foram encontradas espalhadas pela praia. Com cerca de duas vezes o tamanho de uma bola de basquete, elas tinham aparência metálica e duas pequenas saliências em lados opostos.
Como ninguém sabia do que se tratava, as autoridades trataram o caso com cautela. Bombeiros e equipes especializadas estabeleceram uma zona de exclusão de 50 metros ao redor dos objetos, enquanto profissionais usando roupas de proteção recolhiam as esferas para análise. A preocupação era que elas ainda pudessem conter substâncias perigosas, como combustíveis usados em foguetes.
Uma das esferas de metal encontradas ao longo da costa de Forrest Beach. (Facebook (Australian Space Agency)/Reprodução)
Enquanto isso, os cerca de 1.300 moradores da cidade acompanhavam a movimentação com curiosidade.
“Não acontece muita coisa por aqui. É um lugarzinho bem tranquilo e pacato”, disse Lisa Scobie, dona de um restaurante próximo ao local, ao New York Times. “A gente até riu um pouco da situação, rolou muita piada sobre se seriam alienígenas.”
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Na segunda-feira (6), a Agência Espacial Australiana anunciou no Facebook que havia identificado a “fonte provável” dos objetos.
Segundo a agência, as esferas “parecem ser recipientes pressurizados de um veículo de lançamento espacial”. Sua localização e características são compatíveis com destroços de um foguete estrangeiro que reentrou recentemente na atmosfera após passar um período em órbita.
A ASA informou ainda que continua em contato com autoridades internacionais para confirmar oficialmente de qual foguete elas vieram e qual país realizou o lançamento.
As equipes de emergência concluíram que os objetos encontrados são seguros. Ainda assim, a agência alertou que novos fragmentos podem aparecer na região e recomendou que qualquer pessoa que encontre um semelhante mantenha distância e acione as autoridades, sem tentar tocá-lo ou removê-lo.
O que são essas “bolas espaciais”?
Apesar da aparência incomum, especialistas dizem que esse tipo de objeto é relativamente conhecido na indústria espacial.
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Segundo Alice Gorman, arqueóloga espacial da Universidade Flinders, em entrevista à ABC, as esferas são um exemplo clássico das chamadas “bolas espaciais”, recipientes pressurizados usados nos sistemas de combustível dos foguetes.
Esses reservatórios armazenam combustíveis ou gases sob alta pressão antes do lançamento ou durante determinadas etapas da missão espacial.
Esses tanques costumam ser fabricados com ligas de titânio ou outros metais capazes de suportar temperaturas extremamente altas. Por isso, diferentemente de muitas outras partes do foguete, eles conseguem sobreviver à intensa fricção gerada quando o veículo retorna à atmosfera.
Depois que o combustível é consumido, essas esferas ficam ocas. Isso pode fazê-las flutuar na água, permitindo que correntes marítimas e ondas as transportem até praias, como aconteceu em Forrest Beach.
A sobrevivência desses componentes não significa necessariamente que houve algum problema durante o lançamento do foguete. Segundo Gorman, isso é um comportamento esperado desse tipo de equipamento.
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Lixo espacial
As esferas encontradas na Austrália fazem parte de um problema cada vez mais comum: o lixo espacial.
O termo se refere a qualquer objeto produzido pelo ser humano que permanece no espaço sem cumprir mais sua função. Entram nessa categoria desde estágios descartados de foguetes até satélites desativados e pequenos fragmentos gerados por colisões.
À medida que mais foguetes são lançados, esse “cemitério orbital” cresce rapidamente. Em 2019, havia cerca de mil satélites ativos ao redor da Terra. Em março de 2026, esse número já ultrapassava 14.500, sendo quase 10 mil pertencentes à constelação Starlink, da SpaceX.
A maior parte desses objetos nunca chega ao solo. Quando sua órbita diminui, eles entram novamente na atmosfera em altíssima velocidade. O calor gerado pelo atrito com o ar é tão intenso que quase todo o material acaba queimando e se desintegrando antes de atingir a superfície.
É por isso que quedas de destroços em áreas habitadas continuam sendo raras.
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Ainda assim, algumas peças mais resistentes conseguem sobreviver à reentrada. Os recipientes pressurizados encontrados na Austrália estão justamente entre os componentes que mais frequentemente resistem ao calor extremo.
Qual a probabilidade da Terra ser atingida por um asteroide grande?
Essa não é a primeira vez que destroços espaciais aparecem na Austrália. Em 2022, um grande fragmento de uma cápsula Dragon, da SpaceX, foi encontrado no sudeste do país.
No ano seguinte, uma enorme cúpula metálica que apareceu em uma praia da Austrália Ocidental foi identificada como parte de um foguete indiano do programa espacial do país.
Um dos casos mais famosos ocorreu em 1979, quando a estação espacial Skylab, da Nasa, reentrou na atmosfera e espalhou destroços sobre a Austrália Ocidental. Alguns de seus tanques de combustível também sobreviveram à queda.
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Pela legislação internacional, esses objetos continuam pertencendo ao país que lançou o foguete, mesmo depois de caírem em outro território.
Segundo Gorman, o governo australiano deverá negociar com o país responsável pelo lançamento para decidir se os componentes serão devolvidos ou não.
Enquanto isso, Forrest Beach aproveitou a fama repentina. Um supermercado local brincou nas redes sociais dizendo que era hora de fazer “compras de pânico” após a suposta queda de um OVNI.
Já o restaurante de Lisa Scobie lançou uma porção temática de peixe, lula e batatas fritas anunciada com um alienígena vestido para curtir a praia. O resultado, segundo ela, foi um sucesso. “Foi muito, muito, muito popular”, contou ao NYT.
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