GTA VI é a confirmação final: videogame virou item de luxo

GTA VI é a confirmação final: videogame virou item de luxo

Você pode até detestar videogame, mas não vai conseguir passar incólume pela chegada de GTA VI, jogo cujo lançamento, em 19 de novembro, deverá ser o maior da história dos games. Faz sentido: o predecessor, GTA V, lançado em 2013, vendeu 225 milhões de cópias até agora e sua versão “live service”, GTA Online, gera US$ 4,4 milhões por semana ao estúdio Rockstar apenas no PS5.
Não se engane: GTA VI vai ser um colosso, uma força da natureza, um fenômeno financeiro e cultural como jamais vimos. E, nesta quinta-feira (25), com a abertura da pré-venda, nós tivemos um gostinho das mudanças que esse marco vai trazer — nenhuma delas positiva.

A pré-venda de GTA VI trouxe diversos pontos controversos:
1 – Preço oficial de US$ 80

Nos EUA, o preço padrão para jogos AAA estava em US$ 70 (no Brasil, isso geralmente se traduzia em R$ 350 nos consoles), apesar de haver exceções. O fato de GTA VI colocar seu preço US$ 10 acima na versão Standard (no Brasil, R$ 449,90) gera um precedente: a partir de agora, esse deve ser o novo normal. Quando a empresa dona do maior título do mercado eleva o patamar, isso funciona como uma legitimação da prática, estimulando todas as outras a fazerem o mesmo. 
2 – Conteúdo exclusivo da versão Ultimate
Além da versão Standard, GTA VI também terá uma versão Ultimate custando US$ 100 (no Brasil, R$ 549,90). Geralmente, as versões Ultimate ou Deluxe costumam trazer alguns badulaques cosméticos (skins), trilha-sonora, galerias de arte e outras pequenezas que não influenciam muito a experiência do jogo principal. Mas GTA VI vai mudar isso.
De acordo com o site oficial, haverá diversos conteúdos dentro do jogo exclusivos para quem comprar essa versão, incluindo lojas de roupa, estúdios de tatuagem, alguns veículos e duas missões. A estratégia é óbvia: fazer os jogadores optarem pela versão mais cara. E isso traz a discussão: é justo trancar esses conteúdos para quem paga menos? 
3 – Jogo físico sem disco
A versão física de GTA VI será lançada sem o disco, como seria normal. Em vez disso, a caixa trará um código para que os compradores possam baixar o jogo. A medida gerou muitas críticas entre fãs e tem dois impactos muito claros.

Continua após a publicidade

O primeiro é a questão de impedir que a mídia física seja suficiente para jogar, criando uma dependência da internet e, portanto, uma repetição do modelo de licenciamento que impera nas lojas digitais. (Para quem não conhece, vale a explicação: quando você compra um jogo digitalmente, não adquire o produto em si, e sim uma licença que permite jogá-lo.) Segundo: essa medida acaba com o mercado de usados, do qual muita gente depende para conseguir jogar. Afinal, após ser resgatado uma vez, o código deixa de ser válido.
Há rumores de que essa medida é apenas para evitar vazamentos do jogo e que a versão com disco será lançada até o fim do ano. É esperar para ver.

5 coisas que a Nintendo vendeu antes dos videogames

Uma semana de más notícias
As polêmicas de GTA VI chegam numa semana em que os gamers já não estavam tendo muita paz. Na segunda-feira (22), a Valve revelou o preço da sua Steam Machine, um “PC de sala” que vai permitir acessar a biblioteca da Steam em um aparelho portátil e que remete à experiência dos consoles. Vai custar a partir de US$ 1.049 (cerca de R$ 5.400, em conversão direta) na versão básica. E vem sem controle! Quem quiser um, terá que pagar mais US$ 79. 
Para efeito de comparação: nos EUA, um PlayStation 5 versão digital (sem leitor de discos) e com controle tem o preço tabelado de US$ 599,99. Embora a Valve seja rígida em não definir a Steam Machine como console, fica claro que esse é o mercado em que ela vai competir.

Continua após a publicidade

A outra notícia negativa é que a Microsoft vai aumentar novamente os preços de seu console Xbox a partir de agosto:

Xbox Series S 512GB: US$ 399 → US$ 499
Xbox Series S 1TB: US$ 449 → US$ 599

Xbox Series X 1TB: US$ 649 → US$ 800
Xbox Series X Digital 1TB: US$ 599 → US$ 750

Vale lembrar que esse não é o primeiro aumento dos consoles: no lançamento, em 2020, o Series S de 512 GB custava US$ 299,99 e o Series X de 1 TB custava US$ 499,99. Esses preços foram aumentados pela primeira vez em outubro de 2025. Já a concorrente Sony, fabricante do PlayStation, aumentou os preços de seu console em 2022 (excluindo EUA), 2025 (só para EUA) e em abril de 2026.
Um futuro sombrio
Os aumentos no preço de hardware têm alguns culpados, como a pandemia e a atual crise da memória RAM, em que as fabricantes dos chips estão preferindo fornecer para as big techs que investem em IA, cuja demanda parece interminável.

Continua após a publicidade

Mas o buraco é mais embaixo: vários analistas do mercado apontam que o modelo AAA tornou-se insustentável. “A cada geração, o custo de produção de um jogo dobra”, explicou em 2024 Shawn Layden, ex-presidente da Sony Interactive Entertainment, que cuida do PlayStation. “O que custava US$ 1 milhão no PS1 passou a custar dois, depois quatro, depois 16. Na geração do PS4, o desenvolvimento de um jogo de ponta custava US$ 150 milhões, sem contar o marketing. Seguindo essa lógica, os jogos de PS5 deverão chegar à casa dos US$ 300 milhões a US$ 400 milhões — e isso é simplesmente insustentável”, vaticinou.
Esses números não estão inflacionados. Devido a vazamentos, sabemos os valores de produção de alguns jogos AAA recentes:

Marvel’s Spider-Man 2 custou US$ 315 milhões
Horizon: Forbidden West custou US$ 212 milhões
Cyberpunk 2077 custou US$ 316 milhões
Concord custou entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões

Com a geopolítica global assolada por guerras, disputas por território e possíveis desabastecimentos de commodities (como gás e petróleo), a inflação do mundo está alta: projeção de 4,4% para 2026, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Estamos todos sentindo isso no bolso.
O ponto é: sobra dinheiro para gastar com videogame? A solução da indústria para se adaptar a esses aumentos tem sido demitir em massa e repassar o custo aos consumidores ano após ano. Por enquanto, a demanda não dá sinais de desacelerar: o faturamento do setor bateu os US$ 200 bilhões em 2025 e o número de gamers tem crescido.

Continua após a publicidade

Mas já há sinais de problemas: dados recentes divulgados por Mat Piscatella, analista da Circana, apontam que a Geração Z reduziu em quase 25% seus gastos com jogos em 2025, diferentemente de outras faixas etárias, que passaram a gastar um pouco mais.
Ou seja, entre as pessoas jovens, que ainda estão começando suas carreiras e precisam se preocupar com coisas mais urgentes, videogame já não é uma prioridade. “Uma parcela maior do mercado está indo para pessoas com rendas mais altas, enquanto os segmentos de menor renda enfrentam grandes dificuldades. Esse setor de jogos premium está dependendo cada vez mais do consumidor de maior poder aquisitivo”, disse Piscatella em uma entrevista. Para os jogadores de baixa renda, sobram as opções gratuitas, como Minecraft, Fortnite e Roblox.
Não existe solução a curto prazo para essa crise. Os videogames tendem a ficar mais caros e os consumidores, com menor poder de compra. Sim, videogame virou item de luxo. Mas isso não parece estar incomodando as empresas do setor por enquanto.
AS MAIS LIDAS DA SEMANA

Toda sexta, uma seleção das reportagens que mais bombaram no site da Super ao longo da semana.

Inscreva-se aqui

Cadastro efetuado com sucesso!
Você receberá nossas newsletters pela manhã de segunda a sexta-feira.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *